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china 2010O impacto do moderno enterrando o passado nos atinge com força quando o trem de levitação magnética atinge uma velocidade de cruzeiro de 310 km por hora, bem abaixo do máximo usual de 410 km por hora. A ligação do aero porto internacional de Shanghai até Pudong, o novíssimo centro empresarial, é feita em oito minutos, suave e silenciosamente. Os tratores abrem caminho e as gruas constroem o novo com velocidade semelhante; de um ano para outro, novas avenidas, prédios imponentes e novos hábitos  de consumo aparecem.

Nesta viagem de 2010, visitamos ou conversamos com diretores de oito empresas; um histórico de  crescimento de 33% ao ano é normal, e as metas de crescimento freqüentemente beiram os 40% por ano. Neste contexto  o desafio é construir novas fábricas, contratar, treinar e reter mão de obra, e desenvolver talentos gerenciais locais, uma tarefa que não é trivial. Para fazer frente aos inevitáveis concorrentes imitadores, inovar para estar sempre um passo  à frente em tecnologia de produtos e processos é a única estratégia possível. Empresas brasileiras e estrangeiras atuando no mercado  B2B local indicam que focar na parte nobre do mercado e trazer sempre produtos atualizados é indispensável; diante desta pressão estas empresas começam a fazer pesquisa e desenvolvimento na China, e em alguns casos, colocam lá produtos desenvolvidos com vistas ao mercado local e com desempenho superior ao brasileiro .

Esta perspectiva se explica pelo tamanho e dinâmica do mercado chinês; por exemplo,  a World Expo 2010 em Shanghai espera 70 milhões de visitantes ao longo de seis meses; só de ingressos, serão 1,8 bihões de dólares de receita.   Num dia ensolarado de junho, quase meio milhão estavam lá conosco visitando stands de empresas, associações comerciais e países, inclusive o simpático, verde e futebolístico stand do Brasil. Os das empresas chinesas, todos grandiosos e futurísticos, retratam a preocupação com o crescimento urbano, energia, transporte e sustentabilidade de uma sociedade 60% rural, onde a pressão pela urbanização é enorme, pois  130 milhões de trabalhadores migrantes  vêm às cidades todos os anos para trabalhar.

Estes trabalhadores, sem direito  de fixarem moradia permanente nem à cidadania nas metrópoles urbanas mais ricas do leste compõe a mão de obra .  Continuam registrados como cidadãos de suas cidades de origem, para onde voltam anualmente no ano novo, e aonde vão fixar família e residir após juntarem suas economias nas grandes fábricas de Shenzhen, Guangzhou, Shanghai, Suzhou , e Beijing, entre outras mega cidades.  Mas o público  visitando a Expo 2010 não é o camponês pobre observando as maravilhas do mundo ocidental; são os novos consumidores chineses, com sacolas de compras nas mãos, composto por casais, quase sempre com uma criança, avós e agregados visitando, comendo, consumindo e exibindo sua confiança na China do futuro.

O momento foi especial por outros motivos; todas as as palestras em universidades e empresas salientam que o governo enfrenta novas pressões e desafios surgem a cada momento. No dia em que chegamos, o governo chinês anunciou a flexibilização do cambio, uma medida solicitada com insistência pelos governos ocidentais e que traz um pouco mais de equilíbrio aos termos de troca,  exigindo mais empenho dos exportadores chineses e  melhorando a competitividade de nossos produtos. Mas a principal notícia  durante nossa estada  foi o surgimento ( e a permissão de sua divulgação) de uma sequência de suicídios de operários em mega fábricas da Foxcomm e outras, fruto da desilusão da jovem geração de trabalhadores migrantes com os salários e perspectivas de futuro. Como resultado imediato,  ocorreram  greves, seguidas por aumentos expressivos de salários em toda a região costeira. Aumentos de até 62% concedidos na Honda e Toyota, em alguns casos, e reajustes anuais médios de cerca de 18% nas empresas que visitamos. Nas empresas mais estruturadas, as condições de vida são razoáveis, apesar do trabalho intenso com jornadas de  até 12 horas sendo freqüentes.  A Foxcomm tem uma unidade com 500 mil empregados, e oferece boa estrutura de dormitórios, cinema, biblioteca,saúde, academia, internet, etc. em uma comunidade fechada – que agora está sendo repensada.  O emprego formal conta com seguro saúde e previdenciário, mas alguns palestrantes alegam que menos de 20% dos empregos fabris  do país contam de fato com estes direitos.

Outro impacto que impressiona os viajantes é evidentemente o dos baixos preços das mercadorias e serviços no mercado interno; é possível fazer uma refeição local, (em condições de conforto e higiene não muito favoráveis para nós ocidentais)  por menos de um dólar. Nos mercados, a negociação na compra de produtos de fabricação local  impressiona pela capacidade de negociar-se preços cada vez menores. Parte disto se explica pela estrutura e custo de capital das empresas chinesas, pelo baixo preço dos insumos, e pela enorme concorrência na oferta de produtos. Assim, empresas com origem de capital para-estatal tem primordialmente metas de emprego e faturamento, não de retorno sobre o capital empregado.  O custo de capital  é baixo, e em alguns momentos tem custo real negativo, o que reduz as pressões sobre a eficiência logística na cadeia de valor, e essencialmente elimina o custo de capital na formação de preços chineses, onde as empresas contam ainda com incentivos  fiscais para a exportação.

Mesmo no mercado interno, o que se observa é uma enorme concorrência na oferta; com baixo custo de capital e pouca preocupação com direitos de propriedade intelectual, há poucas barreiras à entrada, e uma concorrência feroz. Em setores como o de geladeiras, temos 4 fabricantes no Brasil, e mais de 250 na China, cerca de 10  montadoras de automóveis no Brasil, e 84 na China, e assim por diante. Esta volúpia de oferta efetivamente  força os preços para baixo, gerando uma enorme competitividade dos fabricantes chineses.

Por fim , é impressionante a capacidade de articulação dos setores publico e privado, de forma a oferecer uma infraestrutura de apoio aos negócios. Nos parques industriais são oferecidos lotes com acessos por rodovias ferrovias,  portos e armazéns alfandegados;  instalações industriais, espaços para construção de moradias de trabalhadores migrantes, sindicatos dispostos a cooperar com os patrões e escritórios centralizados, onde todo o relacionamento com o setor público se dá através de um único órgão; uma empresa com investimento até 100 milhões de dólares consegue todas suas licenças de funcionamento em até 30 dias. Há legislação atualizada quanto a poluição ambiental, ainda que colocada em prática primordialmente nos novos investimentos estrangeiros, tolerando-se em muitos casos as emissões de projetos chineses existentes. A geração de energia é um desafio, pois 75% da energia gerada provem do carvão, que continuará sendo a grande fonte para as próximas décadas.  Ainda que os investimentos em hidrelétricas sejam muito maiores que os do Brasil, que a energia nuclear avance, e que a energia eólica seja apontada como a fonte que mais cresce, o fato é que o carvão, extraído nas precárias e mortíferas minas chinesas será o grande impulsionador do crescimento da china por muitos anos ainda.

Os desafios são muitos; as cidades crescem em ritmo alucinante, os salários sobem, os jovens querem mais conforto e melhores perspectivas do que as gerações anteriores,  e a pressão por renda e direitos iguais se espalha por todo o país. Mas todos que passam a conhecer a China, vivenciam sua dinâmica de crescimento e força empreendedora chegam à conclusão que o centro do crescimento econômico mundial passará pela Asia nas próximas décadas, e as empresas e mercados da China terão um papel cada vez mais importante nos negócios globais.