Em entrevista a um jornal português, o então presidente Fernando Henrique Cardoso chamou o Brasil de país ”caipira”. Caiu o mundo porque se imaginou que era uma definição pejorativa. Não era, explicou depois FHC. Era apenas a constatação de que todo país continental é ”caipira”, no sentido de que olha muito mais para dentro do que para fora.

Os Estados Unidos, por exemplo, também são caipiras, nesse sentido. Mas, como têm interesses em todos os cantos do mundo, Afeganistão, por exemplo, passa a ser assunto interno e obriga os norte-americanos a olhar para fora.

O tempo passou, a globalização avançou, o Brasil tornou-se um ator global mais relevante, mas, ainda assim, continua sendo ”caipira”, se o ponto de observação é Davos, a cidadezinha dos Alpes suíços que, todo janeiro, abriga o encontro anual do Fórum Econômico Mundial. É, seguramente, a maior concentração de personalidades por metro quadrado que o mundo consegue colocar num mesmo ponto, no caso o Centro de Congressos de Davos.

Poucos, no entanto, são brasileiros. Sim, o Itamaraty é um ator global – e não é de hoje. Trata-se de uma ilha de excelência no serviço público, graças ao fato de que o ingresso na carreira só se dá por meio de um exame rigorosíssimo. E a progressão também depende de novas provas e trabalhos de avaliação.

Claro que sempre há um jogo político, como em toda corporação, que facilita a ascensão. Mas, sem submeter- se às provas, ter amigos influentes não resolve grande coisa.

Por isso, em Davos, o ministro Celso Amorim nada de braçada, assim como os diplomatas que o acompanham.  Mas, do setor privado, a presença brasileira é esquálida, perto de zero. Hoje mesmo, em almoço sobre Brasil, uma das participantes reclamou do fato de que as empresas brasileiras pouco se globalizaram, especialmente na comparação com a China.

Não se vê o envolvimento dos executivos nas grandes discussões políticas. Será que banqueiros do porte e da qualidade de Roberto Setúbal e Pedro Moreira Salles ou um executivo de alto nível como Fábio Barbosa, presidente da Federação Brasileiro de Bancos, nada têm a dizer a respeito da regulação do sistema em que trabalham, proposta pelo presidente Barack Obama e motivo de uma baita polêmica?

No âmbito acadêmico, então, a única presença brasileira que eu tenha anotado é a de Jacques Marcovitch (USP), membro do Conselho da Agenda Global sobre o Futuro da América Latina, um dos incontáveis grupos de trabalho criados pelo Fórum.

Será que Luiz Gonzaga Belluzzo, Antônio Delfim Netto e Paulo Rabello de Castro, para citar só colunistas de economia da Folha de S. Paulo, nada têm a dizer sobre a crise, as saídas para ela, desenvolvimento, crescimento?

Será que é preciso lembrar que uma potência global não se faz só de um mercado imenso, de quase 200 milhões de habitantes, com crescente poder aquisitivo. Nem de um governo empenhado em atuar globalmente.

Faz-se também – e talvez principalmente – de uma sociedade que se envolve com o mundo.

PS – Entro em férias até depois do carnaval. Divirta-se.

Clóvis Rossi é repórter especial e membro do Conselho Editorial da Folha, ganhador dos prêmios Maria Moors Cabot (EUA) e da Fundación por un Nuevo Periodismo Iberoamericano. Assina coluna às quintas e domingos na página 2 da Folha e, aos sábados, no caderno Mundo. É autor, entre outras obras, de ”Enviado Especial: 25 Anos ao Redor do Mundo e O Que é Jornalismo”.

29/01/2010

link da máteria: http://www1.folha.uol.com.br/folha/pensata/clovisrossi/ult10116u686708.shtml